23 de jan. de 2011

Quais são os nossos problemas?[continuação]

O problema da criminalidade dentro das escolas e como aspecto formante na vida das crianças é algo candente e terrível, seus desdobramentos afetam a sociedade inteira, contudo ele permanece invisível dentro do meio acadêmico e das políticas de formação docente feitas pelo estado.

Não acho que caiba aqui tentar desvendar os motivos que levam à existência deste ponto cego na educação, mas apontaria para a distância entre os docentes na universidade e uma efetiva vivência cotidiana em escolas públicas, além de a secretária de educação estar olhando apenas paras os índices sem muita interação dialética com os professores da rede. Quem conhece a vida dentro da sala dos professores sabe que o clima entre a SEE e os profissionais que estão no "chão da escola" é no mínimo péssimo.

Mas voltando ao ponto em questão, a criminalidade dentro das escolas passa muito além da questão do policiamento. Existe toda uma cultura estruturante por debaixo das ações criminosas produtoras de identidades desviantes em relação aos padrões esperados para uma sociedade baseada no estado de direito.

A cultura do crime tem feito a cabeça de muitos jovens, inclusive chegado ao cúmulo de ser percebida como carreira profissional, ou marca de roupas que identificam uma "tribo" na zona sul de São Paulo, da mesma forma como existem os punks, emos, skinheads, etc., só que consequências potencialmente piores.

Em nenhuma escola pela qual passei este problema estava ausente, às vezes os alunos eram mais discretos e não causam danos dentro da escola, em outras causavam o pânico entre os professores com óbvio comprometimento no rendimento dos alunos e estresse para todos.

Com risco de perder em abrangência e entrar na discussão dos casos pontuais vou exemplificar o que estou dizendo como no de um aluno de 13 anos, cujo conselho tutelar já acompanhava a família e que trabalhava para uma boca de fumo. Ele vinha quase diariamente para a escola depois de uma noite de "trabalho", ficando em sua carteira sem fazer nada, em alguns dias parecia estar alterado pelo uso de drogas. A polícia já o conhecia, a família já tinha ciência de todo o problema, o conselho tutelar estava acompanhado e o resultado foi nulo. No final do ano, na 6a série, ele parou de vir à escola. O que fazer? Eu como professor formado pela USP não sei, o estado não apontou-me no curso preparatório. Como este caso tive vários, assim como meus colegas de trabalho.

Conheço alunos que de fato contam com serem presos um dia, para terem um futuro profissional! Eles esperam encontrar dentro das cadeias pessoas do crime mais importantes e com isso serem "batizadas", isto é, entrar para o famigerado PCC. Para espanto e terror geral, ser preso é para eles o início da carreira e não o término. A vida no crime tem seu próprio glamour que outras opções mais próximas da normalidade familiar como serem pedreiros, faxineiros ou coisas semelhantes não tem. O crime tem um significado simbólico completamente diferente do que seria de se esperar. Ele cria identidades positivas na mente destes jovens, dá "status" e dinheiro e esta fantasia se traduz em assaltos, sequestros e homicídios, além da sensação de insegurança.

Por tudo isso - e muito mais - me pergunto se isto não é um problema que mereça pesquisa por parte dos pedagogos das universidades e atenção especial da SEE. Até quando vão enfiar a cabeça no buraco e não atenderem às necessidades reais de quem encara este problema sem respaldo?




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