20 de jan. de 2011

Quais são os nossos problemas?

No segundo semestre de 2010 fiz, para ingresso na rede estadual, o curso preparatório da SEE, cuja primeira parte foi dedica às questões pedagógicas e versaram sobre a família contemporânea, a adolescência, bullying e questões mais políticas e teóricas. De fato foi a melhor parte do curso preparatório, no entanto senti falta, assim como praticamente todos os colegas que estavam na mesma "turma", de questões mais próximas do dia-a-dia escolar.

Não é de hoje que importamos teorias e mais teorias sobre tudo, inclusive na área de educação, mas parece que andamos importando também as discussões sobre os problemas comportamentais mo o bullying. De fato é um problema real e bastante visível nas escolas e de forma alguma deve ser posto de lado na formação do docente. Mas não acho que os problemas de bullying em nossas escolas sejam semelhantes aos encontrados nos EUA - lugar onde mais se produz trabalhos sobre o assunto. É notório que os americanos entrem nos noticiários internacionais com jovens massacrando seus colegas a tiros e que esses atiradores tenham um histórico de sofrerem anos de bullying. Arrisco a dizer que o problema lá é muito mais grave que aqui, onde as crianças costumam ser mais abertas para se relacionarem umas com as outras, especialmente - dados de minha única e exclusiva observação - em escolas públicas. É curioso também que este assunto sequer tenha merecido encontrar uma palavra nacional para traduzi-lo.

Será que em nossas escolas não teriam problemas mais, digamos, próprios no campo comportamental? 

Durante a realização do concurso a escola em que trabalhava estava passando por uma série de problemas graves com uso de drogas entre os alunos, com a aproximação de traficantes nos horários de saída e com uma crescente perda de controle dentro das salas de aula por conta de alunos envolvidos com o crime organizado. Houve episódios lamentáveis que não cabem serem aqui expostos, mas que tiveram bom termo com o esforço do corpo docente, conselho tutelar e mesmo da polícia.

É fácil constatar que este não é um problema isolado quando se conversa com outros professores da rede pública, mas infelizmente é ainda pouco estudado e sobre o qual não se tocou em nenhum momento no curso da SEE. Por isto, é recorrente que os professores e a direção passem por problemas semelhantes em toda a rede pública, tendo que enfrentá-lo sem subsídio algum, apenas por força da intuição e da vontade. Um assunto tão complexo e candente está abandonado pelo meio acadêmico brasileiro e pela Secretaria de Educação de SP.

Só tive dimensão do problema por estar em contato direto com a realidade escolar e passar muito tempo conversando e tentando entender o que acontecia com os alunos. Destas conversas foi fácil constatar que um número deles já estavam trabalhando para traficantes, outros trabalharam em algum momento e mantinham contato, e outros ainda tinham o desejo de trabalhar no mundo do crime.

O que eu estou dizendo é chover no molhado para quem está na rede pública! Apesar disso este problema não foi citado uma única vez no curso preparatório da SEE e muito menos em toda minha formação na licenciatura dentro da FEUSP!

[continua]



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