Uma das coisas mais complicadas para explicarmos a outra pessoa é aquilo que acreditamos ser óbvio ou autoevidente, mas que, de fato, não o é. Neste sentido explicar o que é a reciprocidade e seus efeitos em sala de aula não será para eu uma tarefa simples. Para acrescentarmos dificuldades a esta compreensão temos o problema da prática cotidiana e os discursos autovitimizantes produzidos tanto pelos alunos, quanto pelos professores.
Pela minha experiência em sala de aula e conversas na sala de professores percebo que as relações humanas, ou melhor, as ações dos sujeitos são vistos de uma forma que vou chamar de "essencialista", isto é, como se a pessoa agisse sempre porque quer agir daquela forma, sem nenhuma fator externo à própria ação efetuada. Esta forma de ver a atividade dos sujeitos retira qualquer analise do contexto em que a ação se produziu. Se um aluno bagunça foi por livre e espontânea vontade e se um professor é ríspido com algum aluno também. Na prática isto significa que toda a culpa ou responsabilidade da ação recaia única e exclusivamente sobre o autor da ação, eximindo todas as outras pessoas presentes de qualquer conexão com o ato.
Esta visão sobre as ações humanas é fonte de equívocos sem fim dentro das escolas, especialmente na difícil relação entre professores e alunos, mas não só. Imaginemos, em um exemplo que sempre utilizo em sala de aula, que você está rua e alguém chega do seu lado e perguntando as horas de forma grosseira, quase aos palavrões, sua atitude poderá não ser das melhores e, é provável, que você sequer dê a informação pedida. De outro modo, se a pessoa chegar com educação e um sorriso no rosto ao lhe perguntar as horas, você dificilmente irá tratá-la mal. Em ambos os casos o objetivo é o mesmo: saber as horas, no entanto a forma em que a relação foi estabelecida causam reações completamente diferentes e que irão condicionar tudo o que se sucede. É muito comum que os alunos, confrontados com o primeiro caso, desejem até partir para a agressão, enquanto no segundo o sorriso é retribuido.
Este exemplo bastante exagerado tem por objetivo fazer com que os alunos tomem consciência de que suas atitudes podem implicar reações nas outras pessoas, o que inclui os professores com quem eles tem contato. É absolutamente comum ver alunos creditarem ao mais puro desejo dos professores as atitudes grossas com que muitas vezes são tratados. O estresse e a irritação dos docentes muitas vezes não são entendidos como reações à confusão encontrada em sala de aula durante a troca de turmas ou em meio a uma explicação.
Para quem é professor isto que foi dito sobre os alunos é bastante óbvio, no entanto, não costuma ser tão óbvio que as atitudes dos professores são muitas vezes causadoras de algumas das piores reações. Infelizmente da mesma forma que as crianças, muitos colocam somente nas costas dos alunos os problemas de relação que surgem na classe. Para usar um exemplo que eu vi enquanto fazia estágio, uma professora ao entrar na sala de aula com vários alunos de pé e brincando foi logo caçoando de uma aluna que estava no bolo, apesar de nem ser uma das que mais estavam bagunçando. A professora usava o segundo nome da aluna - Aparecida - para reafirmar o quanto a menina gostava de aparecer. Em vários momentos durante a aula, mesmo com a aluna fazendo o que era pedido, a professora voltava a zombar da menina e perguntar o que ela estava aprontando. Neste sentido a coisa mais natural do mundo seria que a aluna se irritasse e de fato começasse a criar confusões que serviam apenas para que a professora confirmasse sua percepção de que aquela era uma aluna problema. Curiosamente, somente na aula desta professora é que a aluna criava problemas.
Este problema, bastante sério, na compreensão de como se dão as relações humanas é natural nos alunos, os quais estão em processo de formação, mas é algo que os professores deveriam entender com maior profundidade, no entanto, antes de responsabilizar os docentes é importante ressaltar que apesar deste problema parecer óbvio, não o é, pois se o fosse, todos saberiam e tomariam atitudes melhores. Não se pode esperar que as pessoas simplesmente saibam disso, a formação docente peca muito por não trazer em seu bojo noções sobre o que se pode chamar de "gestão de comportamentos/relacionamentos". Este é o maior tormento de qualquer professor ao entrar em sala de aula. Anos de teorias bem organizadas, e que partem todas da premissa de que o aluno está sentado e pronto para aprender apenas esperando o melhor método, não dão a menor segurança ou mesmo a competência para alguém de fato entender o que é uma sala de aula. Esperar que noções comportamentais sejam intuidas pelo docente é condenar ao fracasso a aprendizagem, pela impossibilidade de se criar um ambiente harmonioso em sala de aula.
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